Mostra artista convidado: Luiz Roque
Luiz Roque, artista convidado do 15º Cine Esquema Novo – Arte Audiovisual Brasileira
Acompanhar a trajetória de Luiz Roque é saber que seu percurso, iniciado no cinema e de onde iria encontrar as artes visuais, tem sido ocupado pela construção de imagens e sons icônicos e por vezes oníricos, reluzindo um corpo de trabalho onde o filme é um lugar de estar e perceber a biopolítica, um dos pontos de partida de suas ficções.
As diversas interlocuções sociais revelam que a semântica, cotidianamente considerada facilitadora e aliada, tem sua sombra: as lacunas inalcançáveis pela fala. Confia-se, portanto, nos gestos, signos e visualidades, em ordem de preservar nuances indizíveis, afastando a neblina de construções imagéticas singulares e demarcadoras. Há coisas que só as imagens contam, como brilhantemente nos mostra o artista Luiz Roque.
A câmera flutua, ora uma Super8, ora uma 16mm, por um cosmos sci-fi, onde a humanidade mostra-se com props meio ciborgues, ainda não catalogados, todavia lúcidos aos espectadores. Rompe, assim, o frequente estado atual das miragens digitais, elevando mais uma vez a importância à película, ao grão, à alma originária do filme e sua carga de poder social.
A curadoria proposta por Jaqueline Beltrame e Kamyla Belli, em diálogo com Roque, traz obras realizadas em um período iniciado em 2013, finalizando o recorte proposto com Clube Amarelo, de 2024, – filme que abre o 15º Cine Esquema Novo – Arte Audiovisual Brasileira, realizado durante residência artística na Fundación Ama Amoedo, Uruguai, e exibido pela primeira vez no Brasil. Os desafios do devir-queer, assunto recorrente nas obras de Luiz, dissolvem-se diante da história. E este vislumbre de questões políticas, retratadas em imagens estonteantes, e acompanhadas sempre de desenhos sonoros potentes, endossam debates fundamentais, sensivelmente expostos pelos filmes do artista. Não sentimos falta das palavras para sabermos estar diante de relances de um futuro dissidente.
Mostra Artista Convidado – Luiz Roque
Curadoria Jaqueline Beltrame e Kamyla Belli
Confira o caderno de Artista:
OBRAS SELECIONADAS
Ano Branco, de Luiz Roque, 2013, 07min, A14.
Vídeo HD e vídeo digital.
Ano Branco é um thriller ambientado num contexto futurista distópico, em que a autonomia sobre o corpo é claramente fundamental para o acesso à liberdade política.
Na virada do ano de 2030 para 2031, testemunhamos um período de atmosfera social caótica. Após a apresentação de uma suposta palestra/performance da filósofa, escritora e curadora Beatriz Preciado, atualmente Paul B.Preciado, – na qual questões sobre gênero e sexualidade são abordadas radicalmente em seu sentido político –, um mundo cheio de tensões e revoltas vem à tona. Em seguida, ouvimos uma declaração oficial de programas governamentais sobre esses assuntos. Uma voz metálica anuncia que o “transexualismo CID 10 F64” será removido da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde, e assistimos a uma paciente transexual sendo examinada por um robô no que parece ser uma clínica pública em péssimas condições. À medida que os procedimentos relacionados à mudança de sexo e identidade de gênero passam a migrar para as clínicas médicas e estéticas, surge um momento histórico de autonomia radical do corpo, conhecido como Ano Branco.
Clube Amarelo, de Luiz Roque, 2024, 07min12seg, A16.
Vídeo HD e filme 16mm transferido para vídeo.
Clube Amarelo foi desenvolvido durante uma residência artística na Fundação Ama Amoedo, localizada na costa uruguaia, no verão de 2024. Acompanha a pesquisa de Roque sobre desejo e sexualidade na produção de imagens sempre situadas em um período difuso, em um curta-metragem que mescla imagens em preto e branco e coloridas, capturadas em filme e vídeo digital. A Casa Neptuna, que serviu de residência a Roque, projetada pelo artista argentino Edgardo Giménez, é o Clube Amarelo. Esse espaço é uma espécie de sauna à beira-mar, banhada pela luz do sol e da lua, onde as pessoas se reúnem em busca de experiências prazerosas em um espaço mental após o contato com espécies não humanas.
Heaven, de Luiz Roque, 2016, 09min41seg, A16.
Vídeo HD.
O Heaven (céu) de Luiz Roque diz respeito a uma intensa história de amor sobrevivendo sob pressão. No ano de 2080, época em que o vírus Epstein-Barr (mononucleose) sofre mutação para uma versão muito mais agressiva – ligada a doenças de imunodeficiência –, um emaranhado sociopolítico complexo vem à tona. Não por acaso, a narrativa se passa cem anos após o início da década de 1980, marcada pela descoberta da AIDS – um processo que tomou conta dos noticiários e absorveu o imaginário global, além de ser usado deliberadamente para criar estigmas sociais. No filme, a nova epidemia potencial é transmitida pela saliva e atinge principalmente a comunidade transexual, que agora tem que lutar em resistência contra esse profundo problema de saúde e a opressão pública.
Com um elenco formado por atrizes transexuais, Heaven comenta, de modo bastante enérgico – e, ao mesmo tempo, delicado –, o controle dos corpos pelo Estado, numa condição em que as fronteiras burocráticas levam à dissociação violenta entre vida biológica e existência política. Atraído pelo poder da imagem e, principalmente, pelas sensações que ela evoca, o artista combina a natureza da ficção científica – como dispositivo de ventilação de uma hipótese – com os recursos da linguagem cinematográfica para abordar as tensões comuns da vida cotidiana.
República, de Luiz Roque, 2020, 08min18seg, A14.
Vídeo HD e filme Super8 transferido para vídeo.
Em República, o constructo do sexo está sob escrutínio, assim como noções de masculinidade em uma sociedade falocêntrica movida por violência, dominação e ideais axiomáticos de bem-estar, superação e autossuficiência. A sequência de blocos de imagens que se desenrola no filme, as criaturas quase totêmicas e mitológicas aparecendo e desaparecendo diante de nossos olhos, todas elas se apresentam como guerreiros, desajustados, marinheiros em águas turbulentas e enganosamente calmas. No entanto, há um profundo senso de cuidado que permeia toda a narrativa do filme: um olhar gentil emana da câmera, acariciando os personagens como que para preservar sua existência sob a luz impetuosa e abrasiva de nossos tempos. Diante do olhar de estranhos, nada realmente é o que parece ser. Uma alma terna se esconde sob o véu branco da saliva viscosa que sai do quadro da boca do nosso travesso vigarista, como de alguma forma previu Jean Genet em seu Diário de um Ladrão. República foi parcialmente filmado em Brest, porto da França onde Querelle (outra personagem de Genet) ganha vida: um marinheiro, um ladrão, um homossexual, um criminoso, um bandido apaixonado que navega pelos mares. Este é um filme sobre marginais, uma digressão em le temps perdu, uma reflexão sobre as fronteiras coloniais entre o Velho e o Novo Mundo que ainda prosperam em ambos os lados do Atlântico. É sobre um paraíso nunca encontrado, uma fantasia acalentada e uma busca sem fim pela liberdade. Abençoe essa bagunça!
S, de Luiz Roque, 2017, 05min, AL.
Vídeo HD.
Nas áreas subterrâneas da infraestrutura de transporte público de São Paulo, onde a cotidianidade nos movimenta em massa (como um corpo maciço), figuras humanas parecem exibir expressões genuínas, libertas de qualquer rota. Desconhecidas e cheias de vitalidade, elas se expressam e se conectam entre si por meio de coreografias intensas.
Interessado nos efeitos da imagem nas sensações corporais e nas articulações sociais, Luiz Roque parte de uma energia comum à liberação de fortes tensões. Sozinhos ou em grupo, o vogue esfíngico e a dança são atos de resistência que contaminam os túneis e trens da megalópole.
XXI, de Luiz Roque, 2022, 07min, A14.
Vídeo HD e filme Super8 transferido para vídeo.
Zero, de Luiz Roque, 2019, 05min40seg, AL
Vídeo HD.
Combinando as estéticas da ficção científica e da fantasia com a alegoria, o filme Zero (2019), de Luiz Roque, reflete sobre nossa busca constante pela modernidade – um projeto pioneiro de inovação que pode, em última análise, levar ao fracasso. O icônico horizonte de Dubai é o pano de fundo do filme. Contudo, é desprovido de qualquer existência humana ou viva. A única existência viva que conhecemos é a de um cão que orbita os arredores desolados da cidade a partir dos confins de uma cápsula não identificável. De onde surgiu essa entidade voadora? Para onde está indo? Talvez o cão seja o único organismo vivo que resta na Terra e que possui informações importantes. A esse respeito, não podemos ter certeza.
Discursos sobre modernidade e avanço tecnológico têm sido fantasiados há muito tempo por meio de representações de como serão as cidades no futuro. A vida imita a arte, e a arte imita a vida. Esse eterno vai e vem pode ser visto explicitamente na evolução de nossas cidades ao longo do último século. Muitos dos centros urbanos que hoje pontilham nossos horizontes são testemunhos tangíveis do que antes era considerado uma imagem puramente fantástica da modernidade.
Dubai – a megalópole que “surgiu das areias” da Península Arábica, onde imponentes monólitos perfuram os céus e brilham sobre uma paisagem árida e escassamente povoada. Brilha como um lugar que não abraçou a modernidade, mas se tornou um arquétipo dela. Zero não se refere diretamente a Dubai, mas usa a cidade como pano de fundo metafórico sobre o qual reflete projetos de inovação cada vez mais novos e grandiosos.

